sábado, 22 de julho de 2017

airnbd









já não há para onde fugir. olho para dentro de mim e não caibo, olho para fora e não me enquadro. recuso ver o que vejo e amordaço o que sinto. 
percorro o airnbd, em vão. 
acabo por me aninhar no sofá ouvindo o som dos carros na rua. gostava de conseguir enrolar-me como os cães e esconder o focinho debaixo da coxa traseira. a vida é cada vez mais um vestido apertado com a etiqueta a picar no pescoço.











sexta-feira, 21 de julho de 2017

colecção












guardo numa caixa de sapatos velhos, todas as palavras que não lhe digo. 
frio, vento, mar, algas, voo, deslizar, onda, ave, silêncio, chuva, sol, amanhecer, estremecimento.











domingo, 16 de julho de 2017

motivos












a razão primeira deste blogue, foi tentar ser outra, oposta a mim mesma. não consegui.
a razão segunda deste blogue, foi dar voz a um querer mudo, a uma vida inexistente.
procuro um terceiro motivo, igualmente incoerente.










quarta-feira, 12 de julho de 2017

tu sabes







Quiero que sepas
una cosa.

Tú sabes cómo es esto:
si miro
la luna de cristal, la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,

todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas, luz, metales,
fueran pequeños barcos que navegan
hacia las islas tuyas que me aguardan.

Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco.

Si de pronto
me olvidas
no me busques,
que ya te habré olvidado.

Si consideras largo y loco
el viento de banderas
que pasa por mi vida
y te decides
a dejarme a la orilla
del corazón en que tengo raíces,
piensa
que en ese día,
a esa hora
levantaré los brazos
y saldrán mis raíces
a buscar otra tierra.

Pero
si cada día,
cada hora
sientes que a mí estás destinada
con dulzura implacable.
Si cada día sube
una flor a tus labios a buscarme,
ay amor mío, ay mía,
en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni se olvida,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
sin salir de los míos.

Pablo Neruda










sexta-feira, 7 de julho de 2017

brinca comigo









ele brinca comigo. 
ele chega sem avisar, e, matreiro, joga aos berlindes com as minhas sensações e desperta os meus arrepios, faz vertigens dentro de mim. 
ele esconde palavras nos recantos do meu corpo - suavidade, intensidade, calor, pele, dedos, todo, inteiro, aroma - e nos lábios deixa sempre reticências.
ele enfeita-me o cansaço de poemas - I'll be here when you want me like the sound inside a shell - e eu a saber que não e a fingir que sim.
ele faz do meu duche uma sinfonia dourada e envolve o meu corpo de uma espuma que eu nunca vejo, mas sinto. 

ele desaparece sem avisar e eu nem o vejo ir, assim como quando ele está e eu não o consigo ver, mas está, naquele lugar dos segredos da alma. 
outras vezes, e estas cada vez mais vezes, ele esconde-se de mim e o meu coração, que costumava ficar assim encorrilhadinho, também aprendeu finalmente a não esperar, e então, o meu músculo guardado dentro do peito, deixou de mirrar, ou então já tinha secado tudo o que tinha a secar e ficou ali assim, a bater para viver. os arrepios também desapareceram de tanto antever que ele partiria sem que eu percebesse, e as vertigens sossegaram, não mais senti que não podia regressar do mergulho que me fazia entrar em mim pela mão dele. o meu duche é agora apenas a água quente que me conforta e os recantos do meu corpo deixaram de abrigar palavras. as reticências nos meus lábios foram caindo aos poucos, e apenas resta um ponto, só, sem continuação. 

ele continua a chegar e a partir sem avisar. 
ele é menino e brinca comigo. 
eu, perdi-me no passar do tempo.












quarta-feira, 5 de julho de 2017

pouca coisa









acordo e ele não está. aliás, nunca está. os meus passos descalços percorrem silenciosamente a casa sentindo a maciez da madeira morna. a ausência dele é uma segunda pele, um manto que cobre a minha figura nua. já nem a falta lhe sinto. entro no dia com o corpo todo e ele não é senão este burburinho que sinto em todos os poros.








terça-feira, 4 de julho de 2017

o vento voltou









e o vento voltou. de sul, de norte, voltou numa dança ​louca ​de roda baiana. ​numa reza só minha, peço-lhe que leve a saudade, a distância, a tristeza, a falta, todos os arrepios que são dele na minha pele, o aroma do perfume que não cheirei, o toque que não senti, os poemas que ele não me leu, tudo o que nele me amputa, e, que me deixe o sono para que eu descanse.












quinta-feira, 29 de junho de 2017

do dia










aproximo-me dele.
respiro.
continuo o dia.
ele não sabe que me reforça.










quarta-feira, 28 de junho de 2017

domingo, 25 de junho de 2017

do tempo










este blogue fez um ano há um mês. eu nem notei. nem me notei neste tempo todo, e mais.













Que reste-t-il

sábado, 24 de junho de 2017

insignificâncias










ele sabe-o.
para ele não tenho nada. 
apenas coisas que não se vêem.
este gostar.
o sol na pele.
o vento no corpo.
este gostar.
o aconchego das copas das árvores.
um banco à beira-rio.
este gostar.
deixar ir embora.
ficar.
este gostar.
o aroma do manjericão ao sol.
salpicos do mar.
este gostar.
o adeus.
o olá.
este gostar.
o adeus.
não conseguir ir embora. 
este gostar.
o adeus.
o adeus.












sexta-feira, 23 de junho de 2017

das mãos










foram tantas as palavras
escritas para ti
que hoje perco os meus olhos
nas minhas mãos
inúteis
vazias









quarta-feira, 21 de junho de 2017

verão










em todo o lado anunciam o início do verão. para mim, é o momento em que os dias começarão a dar espaço à noite, antecipando lentamente a hora de recolher, a hora em que te encontro, a hora dos sonhos.









terça-feira, 20 de junho de 2017

morre-me








olho para as minhas mãos quietas. ele morre-me devagarinho. os dedos pousam no teclado vazios de palavras. o meu olhar perde-se no negrume da noite que se alarga pelo céu vazio de estrelas. ele morre-me devagarinho. morre-me, e eu finjo que não sinto 











sábado, 17 de junho de 2017

andorinha-se







com os braços elevados, rodopia nua ao vento sul sob o ardor do frémito solar. 
a pele pede a pele dele por todos os poros, como se gritasse. 
ele não sabe do apelo do corpo, da urgência das estações, da inconstância das marés. 
ele segue sereno. 
ela andorinha-se num num voo sem fim.

















quinta-feira, 15 de junho de 2017

contabilidade









jantamos? pergunta, enquanto pensa quanto tempo o homem esperou por aquela pergunta. dez meses, recorda. 
não mais do que ela espera pelo outro. muito menos. lembra com frieza como se a sua loucura pudesse ser medida de tempo.










quarta-feira, 14 de junho de 2017

a resposta










é simples.
estão aqui, cruzados, diante do meu olhar, dois pés pousados numa almofada com as cores todas do arco-íris; são também dez os dedos que batem no teclado; encostado ao sofá, apenas um coração dentro do peito; debaixo do chuveiro, estará daqui a pouco, um só corpo; o lado esquerdo da cama estará fresco, quando eu rebolar às quatro da manhã.
não consigo ver o que vejo.












terça-feira, 13 de junho de 2017

do cansaço









faço do meu corpo um manto onde o abrigo quando o cansaço o verga.








segunda-feira, 12 de junho de 2017

desencontro












anoitece tão tarde
anoiteço tão cedo








sexta-feira, 9 de junho de 2017

como eu gosto dele





chamar-me-iam, se pudessem, tonta e iludida. exibiriam conceitos de dignidade, verdade e fidelidade, contrastando com a minha maneira de amar. mas eu engrandeço-me com os momentos que ele me dedica nos seus dias atarefados, dos sorrisos de que se veste quando me vê, na vontade de estar perto e da sua pele se pacificar na minha.









quarta-feira, 7 de junho de 2017

do amor










é amor que faço com ele, quando faço com que ele sorria.











domingo, 4 de junho de 2017

Jaisalmer







"Un lugar donde el vuelo extremadamente sedoso de las bandadas de palomas nos alcance sin apenas rozarnos."










visibilidade








é debaixo da pele que tudo se passa.
que a impossibilidade ri
que a alma se revolta
que a distância dói
que o corpo treme
que a tristeza fala
que tu me faltas
que eu parto










sábado, 3 de junho de 2017

em vão








É ​vendo no rosto dele​,​ o amor que sente por mim, em vão, que a minha compaixão por ele, ​se ​encontra ​com aquela que me nasce, ao reconhecer o que sinto por ti, em vão.










sexta-feira, 2 de junho de 2017

solto









enquanto o distraio com trivialidades, chego bem perto e respiro o ar que circula junto à pele dele.
inspiro-o e deslargo-o.
















quinta-feira, 1 de junho de 2017

parto








vou embora, murmuro. vou deixar-te. o meu corpo dói-se da dor de não te ter, por isso parto. 
escrevo e apago todas as frases que ensaio. não consigo preencher os espaços entre as palavras de olhares demorados, de hesitações de partidas, da esperança do teu abraço, de tudo o que não tenho.
é por isso que vou embora, porque dói.










quarta-feira, 31 de maio de 2017

recebe-me








no teu abrigo, a tua enseada, o teu cansaço, as tuas palavras silenciosas, os teus gestos lentos, tu, perto de mim, o meu olhar mergulhado no teu, devagar.
sorri

sorri








terça-feira, 30 de maio de 2017

sobre ela








Ela sabe falar lhe de amor melhor do que eu. Ela cita poetas, transcreve escritores constrói prosas e versos. Eu, o único poema de que me lembro quando penso nele, é o do Eugénio que diz que 'devias estar aqui rente aos meus lábios', e devias, e depois perco me na ideia dos lábios dele e na ideia da pele dele e na ideia dele, que é tão bonito, ele, de todas as maneiras que eu acredito que as pessoas possam ser bonitas. Falar lhe de amor também não sei, a não ser deste impedimento que me vem por tanto gostar dele e não conseguir querer mais ninguém. 










segunda-feira, 29 de maio de 2017

voo









Estou lhe grata por não me dar asas para gostar de​le. 
Iria voar, como Ícaro.










domingo, 28 de maio de 2017

tapeçaria






cruzo ​as tuas palavras com as palavras dela​,​ 
com o que e​u ​sinto, 
com o tempo que voa​,
​com a distância do desconhecido
com a nitidez do invisível
com a cegueira da lucidez
e faço uma maré de mantas de retalhos, onde, navegando, me perco nos dias, 
sem mapa, 
sem bússola
sem leme.







sexta-feira, 26 de maio de 2017

arrisco tudo








eu não me enfeito para ele, não cuido da linguagem, descuro a leitura, escrevo de rompante, chego a horas impróprias, nunca parto, ofereço-lhe o meu cansaço, exibo o meu desejo, conto-lhe da minha alma, ele sabe do meu querer, exponho o meu lado frágil, mostro as minhas defesas.

arrisco tudo.







quinta-feira, 25 de maio de 2017

da proximidade









ele não sabe que quando diz dedos, pele, nuca, água, vem, suavidade, lentidão, o meu corpo estremece à distância de uma vida.









quarta-feira, 24 de maio de 2017

estratégia










Saio da tua vida às arrecuas, enquanto me conta do teu amor por ela. Se afinal me quiseres, direi que estou a chegar. Não saberás que tentei partir, e não consegui.







segunda-feira, 22 de maio de 2017

sonhei contigo
















quem me vê, não me vê, pois esta noite fiquei presa no sonho em que sonhei com ele. estava o corpo dele nu, junto ao meu corpo nu, ele, repousando no meu braço, o rosto sobre o meu peito, a perna dele a percorrer as minhas, até ao ventre, as bocas unindo-se num despertar. o meu.












nua por dentro












todos os dias me digo que vai ser hoje que te vou deixar em suspenso. mas depois tu vens e eu com esta vertigem a percorrer-me as pernas e o arrepio dentro dos olhos e uma emoção que não sei onde nasce e um querer que não tem raízes. então, eu, bebo de ti todas as palavras, percorro as tuas mãos, agasalho-me de ti, dispo-me para ti.










sábado, 20 de maio de 2017

sobre ele








ele deixa palavras espalhadas pelo meu corpo despertando em mim sentidos adormecidos 
eu durmo com ele, acordo com ele, banho-me com ele, passeio-me com ele, vejo o mar para ele, trago o sol na pele para ele, repouso-me nele, alegro-me por ele

e ele não sabe







vês, daí?










trazida suavemente do sono profundo pela ténue luz d​o amanhecer, abro lentamente os olhos,​ e, à minha frente estendem​-​se, cruzados​,​ um em cima do ou​tro​​, os meus braços, alongad​os​ ​na​ largura da cama. a cor da pele contrast​a​ com o branco do algodão. na sua extremidade pousam as minhas mãos, abertas, tão vazias das tuas.
















quinta-feira, 18 de maio de 2017

lascívia









a camisola que eu trazia era tão macia, que nem a senti descer e deixar-me o ombro desnudo. assim que percebi que ele tinha o olhar baboso pousado no meu corpo, puxei lentamente a malha de forma a que me cobrisse.
- és mázinha. se me estava a dar prazer olhar para o teu ombro, porque o cobriste?
não respondi. incomoda-me o prazer lascivo que possa ter quem eu não desejo, ao olhar para mim.
na boca trago ainda o travo amargo, de tempos longínquos, quando, fingindo que dormia, o sentia destapar-me os lençois para observar o meu corpo semi-nu, deitado, e o movimento do colchão de seguida.










trajecto






ele lê poetas, eu leio almas.​ procuramos o mesmo por caminhos diferentes.







quarta-feira, 17 de maio de 2017

amar por dois










é claro que eu não posso amar por dois. mas posso aceitar, pacificamente, o meu amor unilateral, por ele.








terça-feira, 16 de maio de 2017

sobre a procura








cansado, despir-te do dia, chegares a mim rendido e seres inteiro no meu abraço. todo tu poema, todo tu melodia, todo tu brisa, todos os teus poros todos sentidos. e eu, as vidas todas à procura desse abraço.







segunda-feira, 15 de maio de 2017

o norte no sul










há dias em que o desejo com tanta força, que tenho medo de juntar os pontos cardeais num só. 

como hoje.









domingo, 14 de maio de 2017

tu sabes que eu sou de exageros










com uma brisa no rosto encontro uma razão para viver
numa insignificância  vejo uma bênção dos deuses
num 'bom dia' teu vejo uma história de amor