segunda-feira, 29 de maio de 2017

voo









Estou lhe grata por não me dar asas para gostar de​le. 
Iria voar, como Ícaro.










domingo, 28 de maio de 2017

tapeçaria






cruzo ​as tuas palavras com as palavras dela​,​ 
com o que e​u ​sinto, 
com o tempo que voa​,
​com a distância do desconhecido
com a nitidez do invisível
com a cegueira da lucidez
e faço uma maré de mantas de retalhos, onde, navegando, me perco nos dias, 
sem mapa, 
sem bússola
sem leme.







sexta-feira, 26 de maio de 2017

arrisco tudo








eu não me enfeito para ele, não cuido da linguagem, descuro a leitura, escrevo de rompante, chego a horas impróprias, nunca parto, ofereço-lhe o meu cansaço, exibo o meu desejo, conto-lhe da minha alma, ele sabe do meu querer, exponho o meu lado frágil, mostro as minhas defesas.

arrisco tudo.







quinta-feira, 25 de maio de 2017

da proximidade









ele não sabe que quando diz dedos, pele, nuca, água, vem, suavidade, lentidão, o meu corpo estremece à distância de uma vida.









quarta-feira, 24 de maio de 2017

estratégia










Saio da tua vida às arrecuas, enquanto me conta do teu amor por ela. Se afinal me quiseres, direi que estou a chegar. Não saberás que tentei partir, e não consegui.







segunda-feira, 22 de maio de 2017

sonhei contigo
















quem me vê, não me vê, pois esta noite fiquei presa no sonho em que sonhei com ele. estava o corpo dele nu, junto ao meu corpo nu, ele, repousando no meu braço, o rosto sobre o meu peito, a perna dele a percorrer as minhas, até ao ventre, as bocas unindo-se num despertar. o meu.












nua por dentro












todos os dias me digo que vai ser hoje que te vou deixar em suspenso. mas depois tu vens e eu com esta vertigem a percorrer-me as pernas e o arrepio dentro dos olhos e uma emoção que não sei onde nasce e um querer que não tem raízes. então, eu, bebo de ti todas as palavras, percorro as tuas mãos, agasalho-me de ti, dispo-me para ti.










sábado, 20 de maio de 2017

sobre ele








ele deixa palavras espalhadas pelo meu corpo despertando em mim sentidos adormecidos 
eu durmo com ele, acordo com ele, banho-me com ele, passeio-me com ele, vejo o mar para ele, trago o sol na pele para ele, repouso-me nele, alegro-me por ele

e ele não sabe







vês, daí?










trazida suavemente do sono profundo pela ténue luz d​o amanhecer, abro lentamente os olhos,​ e, à minha frente estendem​-​se, cruzados​,​ um em cima do ou​tro​​, os meus braços, alongad​os​ ​na​ largura da cama. a cor da pele contrast​a​ com o branco do algodão. na sua extremidade pousam as minhas mãos, abertas, tão vazias das tuas.
















quinta-feira, 18 de maio de 2017

lascívia









a camisola que eu trazia era tão macia, que nem a senti descer e deixar-me o ombro desnudo. assim que percebi que ele tinha o olhar baboso pousado no meu corpo, puxei lentamente a malha de forma a que me cobrisse.
- és mázinha. se me estava a dar prazer olhar para o teu ombro, porque o cobriste?
não respondi. incomoda-me o prazer lascivo que possa ter quem eu não desejo, ao olhar para mim.
na boca trago ainda o travo amargo, de tempos longínquos, quando, fingindo que dormia, o sentia destapar-me os lençois para observar o meu corpo semi-nu, deitado, e o movimento do colchão de seguida.










trajecto






ele lê poetas, eu leio almas.​ procuramos o mesmo por caminhos diferentes.







quarta-feira, 17 de maio de 2017

amar por dois










é claro que eu não posso amar por dois. mas posso aceitar, pacificamente, o meu amor unilateral, por ele.








terça-feira, 16 de maio de 2017

sobre a procura








cansado, despir-te do dia, chegares a mim rendido e seres inteiro no meu abraço. todo tu poema, todo tu melodia, todo tu brisa, todos os teus poros todos sentidos. e eu, as vidas todas à procura desse abraço.







segunda-feira, 15 de maio de 2017

o norte no sul










há dias em que o desejo com tanta força, que tenho medo de juntar os pontos cardeais num só. 

como hoje.









domingo, 14 de maio de 2017

tu sabes que eu sou de exageros










com uma brisa no rosto encontro uma razão para viver
numa insignificância  vejo uma bênção dos deuses
num 'bom dia' teu vejo uma história de amor









sábado, 13 de maio de 2017

conto quatro pares de óculos na mesa de cabeceira para não perder uma mensagem tua









Uma porcaria de um mail da TomTom acordou-me às seis horas. É 20% de desconto que propõem não sei para o quê. Logo hoje que podia dormir até às sete. Pus os óculos para ler o que pensava ser a tua despedida. Ia responder-te 'dorme".
Nunca chegaste e no entanto todos os dias espero que partas. Todos os dias me despeço. Todos os dias aguardo. Todos os dias me habituo à tua ausência. Todos os dias lhe digo, a ela, que te conserve.
É extenuante viver o que não existe.













sexta-feira, 12 de maio de 2017

atarantada







ficar assustada com o efeito do seu bom dia











quinta-feira, 11 de maio de 2017

amar são duas mãos em concha








abertas
para quando ele chega
para quando ele parte








quarta-feira, 10 de maio de 2017

com o coração desfolhado









amar também é vê-lo dar a mão, a ela, e eu, abraçá-la de seguida








terça-feira, 9 de maio de 2017

e vê-lo ir







amar também é deixá-lo ir











domingo, 7 de maio de 2017

sobre nós









todas as manhãs de domingo acordo mais cedo para entrar sorrateiramente na cama dele. vou largando a roupa pelo chão, pois é nua que quero chegar. então, ele acolhe-me e as curvas dos nossos corpos adequam-se perfeitamente, ajustando as convexidades com as concavidades, separadas apenas pelo espaço de um suspiro da pele.  nas manhãs de domingo não gastamos palavras. numa cadência ondulada falamos a linguagem das mãos, os murmúrios dos poros. 
são de sal os nossos beijos, de água da maré baixa.











concêntrico











fui procurar o meu amor junto ao mar, sem perceber que o levava dentro de mim.











sábado, 6 de maio de 2017

fora de água









perderam a cor, as algas vermelhas que, da praia, trouxe nos bolsos. assim será o meu amor, se eu o trouxer comigo.








sexta-feira, 5 de maio de 2017

sobrevivência








então obrigou o sorriso, levantou o rosto, escolheu um vestido, realçou os lábios, perfumou a nuca, escovou o cabelo, calçou uns sapatos rasos, e aceitou o convite. iria rir-se, brincar com as palavras, seduzir o pobre homem.









das medidas







o burburinho da minha pele fala-me da distância da pele dele.








quinta-feira, 4 de maio de 2017

eu e eu








o meu corpo cumpre todas as suas funções. acorda, veste-se, do avesso, mas veste-se, sai para a rua, vai ao café, trabalha, conversa, responde a perguntas e segue indicações, regressa a casa, faz compras online, assina o correio registado, escreve, adormece. 
a minha alma, já a minha alma, voa. acorda com ele, banha-se com ele, vela por ele, repousa nele, ama com ele, passeia-se com ele, sofre com ele, alegra-se por ele.
neste desencontro, quem me vê não me vê, onde estou não estou. na verdade, a vida passa e não a vivo, mas o tempo esfuma-se e envelheço. 
agora que o escrevo, reparo que o que de verdadeiro trago na vida, é o tempo que passa.










quarta-feira, 3 de maio de 2017

mau jeito








na verdade nunca soube amar. dizem de mim que sou seca e bruta no trato, ausente de gestos de carinho e impaciente por despedidas. 
assim, de tanto lhe querer bem, deixo-o repousar nos braços de quem o encanta e sabe amar.









terça-feira, 2 de maio de 2017

sobre o meu amor








o meu amor é um tornado fresco e manso. envolve todos os recantos do meu corpo, a minha pele arrepia-se em voo de prazer, os meus pés deixam de sentir o chão e estou com ele, mesmo onde ele não está.










segunda-feira, 1 de maio de 2017

fuga







as gaivotas gritam desesperadas
eu tenho frio
escrevo
-te











domingo, 30 de abril de 2017

If you go away as I know you must

ele








Todas as mulheres que escrevem lamentos, lamentam-se por ele. Todas as mulheres que escrevem alegrias, alegram-se por ele. Todas as mulheres que trazem na boca as palavras que ele verte, foi ele que lhas poisou nos lábios. Todas as faltas são falta dele. Todos os risos são presença dele.









sobre ti


quinta-feira, 27 de abril de 2017

ciúmes









ciúmes tenho dos traços que ele deixa no sorriso dela, dos poemas na sua boca, das palavras nos seus dedos. ciúmes tenho dos olhos que o viram, do ar que ela respirou junto dele, do sol que, com ele, coloriu o seu rosto. ciúmes tenho dos sonhos que ele criou para as noites dela e do primeiro pensamento nele, na alvorada.











sexta-feira, 21 de abril de 2017

ao cair no dia






entrego-te o mais simples de mim - este meu corpo cansado, nu, indefeso. 
toda eu frágil. 
frágil.










quarta-feira, 19 de abril de 2017

memórias de pele







o dia amanheceu ventoso e morno. as gaivotas planam tão rente a mim, parada, a assistir ao nascer do dia, que quase me tocam. prendo o cabelo no cimo da cabeça para sentir o corpo invisível do ar a passear pelo meu pescoço, pelos ombros. 
fecho os olhos, inspiro e penso nele. ele não está. nunca estará, mas trago-o tatuado do lado de dentro da pele.









segunda-feira, 17 de abril de 2017

nada









todos os dias senti-te como se fosse o último. 
tenho vivido de mudas despedidas e não cheguei a viver-te, de tanto me despedir.
entristeço-mo nas minhas mãos vazias.










domingo, 16 de abril de 2017

fundo










quanto mais me procuro dentro de mim, mais te encontro a ti










i need you

sexta-feira, 14 de abril de 2017

à leitora que se procura no meu desatino






procuro, em vão, um poema que fale deste meu sentir por ele.
procuro nas palavras dos outros, corpo para este querer. e não encontro.
nada leio sobre a pele que tem memórias nunca antes tocadas, nem de esperas calmas, que queimam por dentro. e queria eu escrever isto de forma simples mas fico-me pela incompreensão de mim, num tempo sem registos e numa distância que se ri das unidades de medida.
quem me possa ler, não me entende.
eu, que me escrevo, não encontro o caminho, no caminho não o encontro, não entendo a espera e nem assim desespero.
a verdade, leitora que se procura no meu desatino, é que o que procuro nele, está dentro de mim e não encontro. fico, por isso, presa na espera dele, como se por mim, eu mesma esperasse. 








irracional







eu não sei se é ele que chega, se sou eu que o procuro.
sei que me acolhe na curva do seu braço e que perco a minha perna no meio das suas.
sussurra-me ao ouvido confidências da minha alma, e adivinha todos os arrepios do meu corpo, e brinca com eles.
não sei quando parte. sei que às vezes faz frio e sei que fico e que espero e que isso não depende da minha vontade.









sexta-feira, 7 de abril de 2017

ela








ela mostra-lhe o gostar dele de uma maneira mais bonita do que a minha. tem poemas e prosas e músicas e quadros e viagens e paisagens, e é linda. eu tenho as mãos e os olhos cansados de trabalhos, e o coração dentro de um gradeado. a ele, trago-o sempre num desejo de que a vida o ampare, de que não magoe ninguém, e que me deseje, também. ao final do dia, na tentativa desajeitada em transcender o espaço, encontro-o na forma que ele não sabe que existe, e cuido dele, conforme sei. ela está em tudo o que é belo. eu estou em tudo o que não se vê.







quarta-feira, 5 de abril de 2017

dança










é verdade, todos os dias eu penso que vai ser o último, que ele não voltará. assim como todos os dias me pergunto se alguma vez serei capaz de não regressar a ele. mas quando ele não volta, eu regresso, e ele recebe-me. eu acho que dançamos. é isso, dançamos.










segunda-feira, 3 de abril de 2017

partes de mim







às vezes ele, matreiro e infantil, distancia-se, e quando ele não está, parte de mim tenta adivinhar por onde ele andará, outra parte sabe-o desde sempre, outra parte tenta fingir que nem percebeu que ele está longe, e outra parte, espera, agradecida por ele estar na minha vida, porque tudo o que me vem dele é grande, embora pouco, embora longe, embora breve. 
com ele, eu vivo solta e fico presa, e parte de mim vai e outra parte fica e outra parte, cada vez mais pequena, espera.
no meio destas partes todas, eu disperso-me, e às vezes perco-me de mim, sem saber em qual das partes vivo. 
e a vida passa.








sexta-feira, 31 de março de 2017

por favor








empurra-me para dentro da minha vida. não me deixes ficar aqui, na ombreira da tua. faz frio, muito frio.










terça-feira, 28 de março de 2017

simultâneos









ele fala comigo enquanto ela conta-me sobre ele enquanto fala com ele.
eu sou a peça que se altera.
ele permanece o mesmo.
ela permanece a mesma.
as palavras que ele me diz não deixam de ser as palavras que ele me diz.











sábado, 25 de março de 2017

falta







só percebi como o trazia em mim, quando ao partir, fiquei com o corpo em carne viva.









quinta-feira, 23 de março de 2017

bastos nadas








dizem que é aos poucos que morre um amor.
mas basta um gesto, uma palavra, um silêncio.
basta o sonho, basta o acordar dele.
basta a ilusão, a desilusão.
basta o nada.
o nada.
nada.










domingo, 19 de março de 2017

há vinte anos










sinto o sexo túrgido dele, enquanto me abraça. aceito o abraço e tento criar um espaço que não existe entre os nossos corpos para me livrar daquele desconforto, daquela repulsa.
há vinte anos que ele é apaixonado por mim. há vinte anos que eu me esquivo, escudada pelo casamento dele. há vinte anos que sei que a um sinal meu ele largaria a sua família equilibrada e tradicional.
há vinte anos que aquele homem defende-me acerrimamente de todas injustiças, e há vinte anos que o rejeito. 










sexta-feira, 17 de março de 2017

não partirás










não precisarei nunca de esquecer o teu rosto, o sussurro quente da tua voz na minha nuca, o toque da tua pele no meu corpo, o beijo húmido da tua boca, a tua mão pousada na minha, o riso, o riso, o riso.
nem o momento da partida me magoará.