domingo, 11 de fevereiro de 2018

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

distância






ele foi-se embora quando o frio chegou. na verdade, já tinha ido há muito, mas foi com o frio que deixei de o ver.
depois de ele ir, aconteceu o meu corpo e os electrodomésticos começarem a avariar-se. primeiro foi a máquina de lavar roupa, depois a da louça, de seguida a placa do fogão.
se me perguntar se eu queria que ele ficasse, respondo-lhe que não. não queria. só queria que tudo fosse diferente e que o meu corpo e os electrodomésticos não me falhassem.
o que se passa agora? é que deixei de conseguir escrever cartas de amor, ou lá o que era aquilo. distanciei-me, é isso. do quê? daquilo que é bonito, do quase belo.






domingo, 4 de fevereiro de 2018

condicional








poderia ter ido ter com ele, como tantas outras terão ido ter com ele. 
mas não fui. os quilómetros são muitos e as portagens também. e depois, há as pontes e eu tenho tanto medo de atravessar pontes.
poderia ter lido poesia e os grandes filósofos, se não gastasse os meus dias nesta labuta incessante de quem não tem outra habilidade para sobreviver.
mas não li. arrasto os olhos pelas misérias do mundo, e na hora dos poemas, adormeço.
poderia entristecer-me pela distância, mas não me sinto triste. a única tristeza que sinto é a do cansaço do corpo.
poderia sofrer por amor, se não tivesse nada que fazer, mas o que me faz mesmo falta, é um banho quente ao final do dia.
poderia ter o seu corpo em concha, a acolher o meu. mas em vez dele, tenho sempre um lugar fresco na cama, para aliviar a minha pele, ardente.











quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

medidora de palavras





estivemos tão perto na indisível distância, que eu diria, que num momento qualquer nascemos outros, gente comum, submissos perante a vida, fazendo da visão, aquilo que os olhos alcançam.













terça-feira, 23 de janeiro de 2018

era uma vez







a verdade é que perdi as palavras com que conseguia arrancar-lhe sorrisos. e fazê-lo rir, fazia de mim alegre. e esse foi o primeiro desencontro. eu ser alegre devia morar em mim e não nele. começou tudo ao contrario. e as coincidências onde nos encontrávamos, descoincidiram. e foi com as descoincidencias que as palavras começaram a faltar. e quando faltam as palavras, há os olhares, mas os olhares desviaram-se sem nada que ler. depois, ficaram aqui os meus pés cruzados, um em cima do outro, as mãos dadas, também uma na outra, por detrás do pescoço, do meu, e o corpo cansado.









domingo, 21 de janeiro de 2018

cinzas




De noite, quando o frio entra pelas casas, e um resto de solidão gela o fundo da alma, aqueço-me com o fogo que me deixaste.
De manhã, recolho as cinzas.

Nuno Júdice






domingo, 14 de janeiro de 2018

pela pele dele






nunca disse o nome dele em voz alta, mas, hoje, encontrei-o escrito a lápis, letras maiúsculas decalcadas várias vezes, emolduradas num rectângulo tosco de carvão. 
os meus dedos passeiam-se pelo relevo do papel, como o meu sonho pela pele dele.