segunda-feira, 18 de setembro de 2017

sobre esquecer







poderia até abrir mão deste amor, esquecer. 
mas o que me ficaria de todo o tempo em que vivi nele? 
o que seria das margens que definem esta capacidade, há tanto esquecida, de amar, por o ter amado? 
o que seria da memória da pele, desperta, pela palavra? 
o que seria de tudo o que eu poderia ter sido?















chuva







as gotas de chuva tremeluziam, suspensas no varão da varanda que eu distinguia, de noite, por entre a cortina semi-aberta do quarto.
chove, pensei.
chove... escreveria.
e as minhas reticências tocariam as reticências na resposta dele, num entrelaçar de palavras que estreitavam distâncias. 
e eu deitava-me ao lado dele, sem que ele o soubesse. 







quinta-feira, 31 de agosto de 2017

quatro








dentro desta outra de mim, existe uma outra que não quer que ele volte e outra outra que todos os dias olha para o correio e murmura 'escreve-me escreve-me escreve-me'.
se até aqui eu era duas, desde que ele partiu sou quatro.









segunda-feira, 28 de agosto de 2017

tantos dias







foram tantos os dias em que pensei que ele não voltasse mais, tantos. e ele sempre voltou.
agora que não volta, todos os dias me despeço e regresso sempre, a ele. sempre.
são tantos os caminhos, tantos os trajectos que eu invento para poder dizer, que sim.que aceito.que entendo.que seja feliz. mas acabo sempre por regressar a ele, e só aí consego repousar.
foram tantos os dias em que ele voltou, tantos, que agora eu não consigo parar de esperar.
foram tantos os dias em que esperei.









domingo, 27 de agosto de 2017

i cannot bring a world quite round, although i patch it as i can







naquelas longínquas manhãs de domingo, ele lia-me textos que me vestiam a pele de algodão branco. eu ficava ali, imóvel de espanto, a agarrar cada palavra, cada entoação, sem saber como fazer para que ele não partisse. 
não soube. 
agora restam-me algumas palavras que me abrigam nas manhãs silenciosas.
são tantas as palavras. foram tantos os dias. é tão grande o silêncio em que eu volto a ele.











domingo, 20 de agosto de 2017

ainda







por vezes abismo-me no desejo dele e fico assim, parada na beira da vontade de lhe chegar, de lhe escrever, de o sentir, de me rir por causa dele, mas fico assim a vê-lo na distância de mim, e eu ainda tão próximo tão com ele por dentro tão com ele por todo o lado tão com ele ainda em tudo.









quarta-feira, 16 de agosto de 2017

enroscada








os meus olhos deitam-se nas palavras dele, como no inverno, um gato enroscado à lareira. leio-as, uma a uma, lentamente e não entendo o presente.
[os contos de crianças sempre trouxeram dentro uma história de assustar.]
não entendendo a vida, fico-me num tempo que não vivi.